CABRIL

Espreitava ansioso o Maio, num Abril que findava repleto de vivências tantas e díspares, que em mim fruía, em quase ascética levitação, uma grandiosa e autêntica felicidade, neste peculiar ano, que não se cansa de me brindar e proporcionar com momentos tão subtilmente únicos, que desejadamente espero se possam espraiar, adentro, na mesma ordem de realização pessoal e profissional que atualmente sinto, tão nobres têm sido estes meus sentimentos de pura deleitação e ledice.

Quis o inicio de Maio despontar em alvorada prematura de abreviado descanso hesterno. O meu adormecer deitara-se em prolongado leito de cansaço colorido, e sem me aperceber que lá fora o tempo me tinha faltado para contemplar o gradiente crepúsculo vespertino, vestido de cor e luz bem sedutoras, em cintilante firmamento de estrelas apinhado. O curto e buliçoso sono dispensou o habitual som saído do despertador descansado, ou mesmo, o do longínquo cucar que não teve necessidade de até mim voar, para me levantar do conforto dum dormitar tão tranquilo e tão madrugador. Pequeno almoço aligeirado, em inspiradora e maternal companhia, com as ferramentas da reportagem acondicionadas e preparadas para partir com destino a S. Ane, pequena aldeia comunitária, inserida no Parque Nacional da Peneda-Gerês, concelho de Montalegre. A viagem breve, em céu aberto de azul harmonioso, parecia ter-me levado veloz a um outro mundo, a uma outra realidade, a uma outra gente, e a uma mesma civilização. Em arejado espaço que agora eu pisava, os rostos que me davam as boas vindas, duma chegada já anunciada, eram tão naturais e cândidos, que sem me dar conta, já eu toda estava ali de corpo e alma, como se da minha casa e família se tratasse. A jornada, ainda ensonada, dava os seus primeiros passos, e já o meu coração se desprendia e se entregava em imaculada cegueira a toda aquela comunidade, que certamente teria muitas histórias de vida e da vida para contar.

Em perfilado trilho da «VEZEIRA», tantas vezes percorrido, lá estavam destacados DOIS sorridentes rostos de criança mal dormida, com horas de sono adiado, com o generoso propósito de darem o seu inestimável contributo, em papel de real figuração, à continuidade desta secular tradição, em dia de Maio primeiro. O tempo de hoje era para dar descanso aos livros de escola e aos trabalhos de casa rotineiros, porque a rotina de hoje não era a mesma de outros dias, tantos dias outros da maior parte do tempo das suas vidas. O tempo do dia de hoje tinha acrescida diversidade e importância, e estava destinado a um fim e causa maior: «A TRADIÇÃO DA «VEZEIRA» NÃO PODE FINAR. Estes meninos também têm direito de sonhar! Sem filtros, seus semblantes de crianças bem educadas, chegam até mim, e inebriam embevecidamente o meu profundo palpitar, com tão honrosa e solene receção.

Cajados em tenras mãos empunhados, mochilas ás costas carregados,cantil de cristalina água aconchegados, chifre de bovino em sorrisos de criança recebido...e o« cenário » estava completo e o guião terminado.

Esta gente de nobres costumes aprendidos, onde o respeito se honra e a prática do puro comunitarismo ainda se «pratica» não pode continuar silenciada.Tem muito para ensinar! Venham até aqui, e na magnificência e bondade desta terra e desta gente, encontrarão a verdadeira essência de ser Português, num Portugal que cada vez mais se afasta dos mais excluídos...

Vir à freguesia de Cabril, é viajar no tempo e essencialmente é tornar a aprendizagem e a cultura mais enriquecida, e esta comunidade saberá agradecer com a devida vénia a passagem de cada um de nós, por terras do Gerês.

« Há sítios no mundo que são como certas existências humanas: Tudo se conjuga para que nada falte á sua grandeza e perfeição....o Gerês» Miguel Torga ( 1907-1995 )

Artigo publicado na revista REGIÃO - Montalegre.