GENTE DA NOSSA TERRA - Adosinda, a Princesa centenária | Meixide

«Soube muito cedo o que era ser mãe sem parir.»
Toca realejo, mesmo não sabendo tocar. As modas antigas sabe-as todas na ponta da língua, já para não falar da descrição milimétrica, que tem na memória, das muitas décadas que constituem a sua, já, longa vida. Adosinda Ferreira, completou dia 20 de março os 103 anos.
Diz, entre gargalhadas, que nasceu no meio da palha, à semelhança do menino Jesus. O dia é de festa para esta barrosã natural de Meixide.
Levanta-se com um sorriso desafiador, a olhar para quem está na porta. Um convidado, a seguir ao outro e a casa vai ficando composta. Adosinda emana felicidade e vê-se a metros de distância. Afinal aquele era o seu dia, e sentia-se tal e qual uma princesa, com direito a coroa e tudo.
De microfone ao peito, canta muito, umas a seguir às outras. "Vamos dançar?" Insiste ela, e há quem lhe faça a vontade. Respira fundo, com uma satisfação tremenda e fala das peripécias vividas há muitos, muitos anos. Mas nem tudo foram rosas, houve tempos de amargura, sofrimento, privação, coroados de coragem, resiliência e fé. A mãe viu-se grega para criar os filhos, não fosse a mão de Adosinda, a mais velha dos manos, a tomar conta da pequenada.
Cedo soube o que era ser mãe, sem parir. «Foi muito custoso, ajudar os meus irmãos.» E esta experiência precoce, valeu-lhe para a idade do namorico. «Ó António tu não me enganes, olha que eu já sei como é criar um filho, sem o trazer ao mundo.» As amigas grávidas e algumas sem a paternidade assumida para os bebes que traziam no ventre, viam-se a braços com dificuldades acrescidas, julgando elas terem encontrado o amor para a vida toda, ficaram sozinhas a carregar uma cruz maior que elas.
Ora, Adozinda, queria outra sina, e António, o homem que viria a amar, cumpriu parte da palavra, de com ela casar. A cerimónia religiosa, foi um momento muito simples, e com uma dor no peito. A mãe, não foi ao casamento. «Eu acho que ela queria que eu me casasse com outro homem, mais rico. E não foi à boda.»

ANTÓNIO, O AMOR DE ADOSINDA
Foi uma história de Amor, daquelas que se vêem nos filmes. O Amor de Adosinda por António, seu marido. Casaram pela igreja, e foram felizes, até um dia. Uns anos depois do enlace, ele começa a "variar da cabeça", a ficar sem tino. Suportou as amnésias dele, as agressões, a prepotência até aos últimos dias da sua vida, vinte dos quais, acamado. Nunca lhe faltou com nada, mas aquilo que Adosinda era mestre, morava no seu coração: A generosidade, a humildade e tolerância. No fim, arrependido pediu-lhe perdão. Ela insistia em concretizar o sonho antigo: Casar pelo Registo Civil.
Nunca aconteceu. «Tu para que te queres casar comigo? Sou o pai dos teus filhos, o que é meu é vosso. Não há necessidade.», Dizia ele. Ainda hoje, ela lamenta ter sido assim.

A FESTA DA NOSSA SENHORA DA SAÚDE EM VILAR DE PERDIZES
A religiosidade sempre assumiu muita importância na vida da comunidade barrosã. E as festas em honra dos Santos, eram para a juventude, um motivo de folia, um escape justificado, para o bailarico, sob o mote da Virgem Santa.
Vilar de Perdizes, inaugura as celebrações do género no alto Barroso. Meixide era logo ali ao lado, e Adosinda nos seus 16 anos fervilhava para, com as amigas, ir à romaria. Mas como? Se a mãe não deixava?
«Fiz-lhe o ninho atrás da orelha. Fintei-a e fui escondida com os outros para a Senhora da Saúde.»
Assustada e com medo, agarra-se ao ombro de uma senhora a tremelicar, enquanto olhava para o brilho que vinha do céu. Um rebentamento e outro, e tudo se ilumina. «O que anda aí?» Diz sarapantada. «Ó meu filho não te apoquentes, isto é da festa.» Foi a primeira vez que Adosinda viu o fogo-de-artificio.
Uma festa que lhe saiu cara. Ao entrar em Meixide, à sua espera tinha a mãe, com um gadanho na mão a dizer que "lhe limpava o cebo". Fugiu, e durante uns dias, passou fome, sede e frio, no palheiro onde tinha nascido.

UMA VIDA QUE DAVA UM LIVRO
Carvoeira, durante longos anos, perdeu a conta que foi para Chaves, vender a mercadoria. Numa das idas, faz amizade com o larápio mais conhecido da zona, que segundo constava, roubava aos ricos para dar aos pobres: O Pita. Conseguiu a sua proteção, em incursões seguintes, ao amavelmente lhe dizer "Eu se visse o Pita pagava-lhe um copo", não sabendo ela com quem estava a falar.
Das voltas e reviravoltas que a vida dá, Adosinda vive atualmente em Medeiros com uma neta.
Agradecida por ser tão bem tratada, reconhece o bem que é, ter uma família amiga que está ali para ela. Reconhece que viveu muito, com histórias e mais histórias, dignas de serem publicadas em livro.
O telefone toca. «Ó avó, o telefonema é para si». Feliz por ser mimada, não deixa de ter um
sentido apuradíssimo de humor, na tal comunicação. A princípio dizia não reconhecer a voz de quem falava do outro lado, e conclui: «Sabes porque não conheço a tua voz? Se me ligasses mais vezes já sabia quem eras. Assim só uma vez no ano...» e ri-se como uma desalmada, contagiando todos os presentes.
A resposta para a pergunta recorrente: «Como conseguiu chegar aos 100 anos?» tem-na na ponta da língua, e entrega a responsabilidade a Deus, enquanto decisor do seu destino na terra.
«Ando cá enquanto Ele quiser.» Finaliza. Na despedida, deixou o convite feito: «Para o próximo ano, quero que esteja cá, na minha festa.» E, como ela o diz, "se Deus o permitir" lá estarei, mais uma vez, para contemplar a beleza de quem tantos invernos e primaveras, sabiamente viveu.